Por coincidência, numa mesma novela, “Morde e Assopra”, temos duas relações entre mães e filhos. Até aí, nada demais. A diferença advém do papel maternal exercido pelas duas personagens, e, por outro lado, o da conduta dos respectivos filhos.
O PAPEL DA MÃE
Em um histórico filme russo, “A mãe”, o papel materno, ultrapassando o âmbito familiar, transforma-se num símbolo precursor da Revolução de 1917. Seja por um ideal coletivo, seja em defesa da Família, a mãe tem sido personagem de inúmeros filmes e novelas.
Geralmente, mas nem sempre, são heroínas positivas, enfocadas de maneira simpática e dignas de admiração ou de piedade por parte do público, no seu bem querer pelos filho(s).
O SACRIFÍCIO MATERNO
Em “Morde e Assopra”, como Dulce (Cássia Kiss) temos um exemplo extremado de um amor que se transforma em renúncia da própria da vida. Pobríssima, sem marido, nem parentes para ajudá-la, Dulce complementa o salário miserável vendendo cocadas na rua.
Foi dessa maneira, até deixando de fazer refeições para economizar, sendo humilhada e chamada de “vira-lata” pela primeira dama da Prefeitura, que, ano após ano, assegurou os estudos do filho no Rio de Janeiro.
FARSA E INGRATIDÃO
Vagabundo, pior, mau caráter, o seu filho, Guilherme (Klebber Toledo), jamais cursou a faculdade de medicina. Nunca teve piedade ou remorso de enganar a pobre e ingênua mãe. De volta a cidade, para assumir emprego na prefeitura (arranjado pela mãe) continua iludindo-a, fazendo-se – para orgulho dela – se passar por médico.
Pior: na sua ambição de ascensão social, evita sequer de ser visto em companhia da mãe.
AMOR POSSESIVO
No caso oposto do de Dulce, temos Salomé (Jandira Martini), que, rica e avarenta, exerce sobre o filho Marcos (Sergio Marone), um amor opressivo, castrador. Por ser assim e por agir assim, Salomé não aceita, não se conforma, com o casamento dele com Natália (Carol Castro).
Consumado o matrimônio, passa a infernizar a vida da nora, transformando-a numa espécie de empregada doméstica, acusando-a de haver se casado com o filho por ele ser rico e – principalmente – ser o herdeiro da fortuna dela. Ao contrário de Guilherme, Marcos é um bom caráter, que ama a esposa, mas é psicologicamente dominado pela mãe.
Enquanto Dulce é uma mulher bondosa e autêntica, Salomé é falsa, dissimulada, que desmente as verdades ditas por Natália ao marido. Da mesma forma que existe a mãe boa, também existe mãe má. Na novela, o tratamento em relação a Dulce é realista, mas o de Salomé, cujo enfoque humorístico desdramatiza a sua maldade sem, porém, redimindo-a de sua crueldade e cupabilidade.
(Valério Andrade - Critico de Televisão - Publicada na TV Revista da Tribuna do Norte em 24.04.2011)







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