Elizabeth Taylor, a mais famosa e espetacular figura de Cleópatra
Se a rainha tinha peitos fartos e curvas, talvez nunca se saiba. De qualquer forma, não é o físico que a traz de volta à ribalta. Cleópatra VII – quem diria? – é redescoberta por seus talentos intelectuais e pela veia de estrategista política. Ela exerceu o poder como poucas, escolheu amantes convenientes e lutou até o fim para manter a fortuna e o reino para os filhos. Ressurge agora contrariando os que associam rainhas à doçura e à bondade. Cleo não era nada disso.

No imaginário dos homens: Jean-Léon Gérôme pinta em 1866 a rainha, linda, diante de Júlio César. Moedas revelam uma mulher de perfil duro, nariz adunco e queixo pontudo.
Política de alcova
Para entender a nova faceta, é preciso conhecer o cenário: Cleo comandou seu país entre 41 a.C. e 30 a.C., época em que Roma emergia como superpotência, dominando nações vizinhas. O Egito, mesmo rico, vivia ameaçado de invasão pelos romanos. Para não sucumbir a eles, os reis forneciam grãos, homens e armas em troca de relativa independência. Quando subiu ao trono, cabia a ela manter o acordo. Seus romances com dois governantes romanos não foram coincidência. Júlio César, o primeiro amante, foi o maior dirigente. Casado, culto, era um general de exército afoito e cruel, que acabou assassinado em 44 a.C. Marco Antônio, o segundo, casado e herói militar, sucedeu Júlio, mas dividia o mando com Otávio César, sobrinho do morto. Na partilha entre eles, o Egito coube a quem? Ao par que Cleo escolheu. Na época, casamentos eram acordos entre grupos com interesses comuns. Por isso, Júlio havia se casado com a irmã de Pompeu, seu rival; Marco Antônio, com a irmã do adversário Otávio. Se os homens tratavam assim os matrimônios, por que não Cleópatra? As relações de alcova faziam parte dos planos políticos da rainha. Existiu amor? Sexo certamente houve: teve um filho com Júlio e três com Marco. A rainha era sagaz – segundo o historiador grego Plutarco –, envolvente, falava várias línguas e tinha voz suave. Os estratagemas que usou foram politicamente engenhosos e deliciosamente ousados. Para seduzir Júlio César, surgiu embrulhada num saco de dormir – e não num tapete, como no filme com Liz. Usou o recurso para entrar no Palácio Real de Alexandria, onde ele se hospedara, sem ser vista pelos guardas. Cleópatra estava ameaçada de morte e fraca no poder. Os dois tornaram-se amantes naquela noite excitante e ela logo reassumiu seu lugar na corte. Em 40 a.C., aos 29 anos, “Cleópatra era, então, uma mulher mais madura e mais esperta do que a jovem que encantou Júlio César”, escreveu Plutarco. E seduziu Marco Antônio, que a chamou na Turquia para prestar contas dos negócios do Egito. Ela apareceu num cenário de arrasar quarteirão: num barco com velas de cor púrpura – ninguém mais se lembrou de seu nariz adunco –, cercada por jovens vestidas de cupido, ao som de flautas, em névoa de incensos. Marco Antônio entrou no barco. Os dois mantiveram-se unidos por dez anos e ela se segurou no poder. O acordo: ele, que disputava com Otávio a supremacia, recebeu apoio e soldados egípcios. No toma lá dá cá, entregou faixas do território romano, aumentando o domínio e a fortuna da rainha.
A interpretação do pintor Reginald Arthur (1892) para a morte da rainha: picada por uma serpente
No amor e na guerra
Cleópatra nasceu em 69 a.C., no Egito, numa elite de dominadores macedônios, os ptolomeus, que não tinham identidade cultural com os egípcios. A dinastia durou três séculos. O pai dela, Ptolomeu XII, governou o Egito por 30 anos. De onde teria vindo o treino militar que a levou a comandar um barco das forças de Marco Antônio na guerra contra Otávio? Não há registros. A batalha do Ácio, no mar Jônico, em 31 a.C., envolveu 200 embarcações e 200 mil homens. Marco Antônio e Cleo comandavam a esquadra egípcia juntos. A participação dela no episódio deu origem à sua má fama. Otávio fez da rainha o bode expiatório da disputa. Ele a acusava de ter enfeitiçado o governante romano para levá-lo a trair sua pátria. Otávio poupava o adversário de críticas. A campanha transformou a rainha em inimiga de Roma, enquanto Marco Antônio era visto como vítima da amante. Otávio venceu. O desfecho originou o Im pério Romano. Marco Antônio tentou o suicídio com sua espada. Levado ainda com vida ao mausoléu onde Cleópatra se escondia, em Alexandria, morreu nos braços dela. A rainha, dizem, se deixou picar por uma serpente. Ou teria se matado com um veneno guardado no camafeu preso ao cabelo. O filho dela com Júlio César foi morto a mando de Otávio. Dois dos três filhos com Marco foram entregues à viúva oficial dele. O outro sumiu dos livros de história.
A nova Cleópatra, apesar de ter perdido um certo apelo ingênuo, também fascina Hollywood. A indústria decidiu refilmar a história. A atriz escolhida para essa versão, dirigida por David Fincher, não poderia ser mais apropriada: Angelina Jolie. Casada com o cobiçado ator Brad Pitt, ela projeta a imagem de uma mulher moderna, antenada, sexy e... política. Angelina se engaja em causas humanitárias e aparenta forte conexão com os seis filhos biológicos e adotivos. Além disso, como Elizabeth Taylor, é linda de tirar o fôlego. Dará à nova Cleo mais astúcia e determinação para agarrar o que deseja.
fonte: claudia








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