Filhos, nossa imagem e semelhança




foto: Eu e minha filha Benvinda

 

Quando notei que ela, irritada, falava num tom muito parecido com o de alguém que eu conheço; quando eu percebi que não gostava daquele tom e me dei conta de que aquele alguém era eu, decidi que precisava fazer alguma coisa. Mudar ou no mínimo vigiar para deixar que ela copiasse só o melhor de mim. Como fazer?
 Se você vai continuar lendo este texto achando que até o final dele eu vou apresentar uma baita de uma estratégia que eu usei e deu certo, esqueça.
 Eu não tenho fórmulas para nada. Ofereço apenas constatações.
 Vou começar por uma constatação que ajuda muito e por vezes deixamos cair no esquecimento: crianças estão atentas a tudo, mesmo quando se fazem de distraídas (coisa que, aliás, adoram fazer). Captam a energia do entorno como um para-raio de avião no meio da tempestade. Por isso, mais cedo ou mais tarde, uma mania nossa acaba caindo naquele pequeno radar feito à nossa imagem e semelhança.
 As imitações começaram quando minha filha mais velha resolveu piscar de volta para mim, tal qual eu fazia com ela. Foi assim que eu (e talvez também ela) descobri que ela sabia piscar com um olho aos 4 anos.
 Depois, ela começou a repetir uma mania que eu tenho de me dizer “chocada” com algo que me surpreendeu. E ainda começava a frase com uma negativa, como quem vai me contar algo inacreditável, exatamente como eu faço às vezes. “Não, mamãe…eu fiquei chocada…” e segue falando assim diante do meu olhar ainda “chocado” com tão perfeita imitação.
 O negócio foi ficando cada vez mais elaborado. Ai de mim se faço uma promessa que, pelas circunstâncias, não pode ser cumprida. “Você não disse que ia me contar três histórias, hein, dona Ma-mãe!?”
 Assim mesmo, enfatizando o “dona ma-mãe” como eu digo “dona Letícia” para ela. O riso, eu segurei. A imagem daquele meio sorriso cheio de dentinhos de leite de quem estava disposta a tratar de um assunto urgente comigo, sabendo que o tal “assunto urgente” tinha por objetivo estender minha presença na cama dela antes de dormir, eu não vou esquecer jamais.
 Quando Letícia veio, finalmente, me mostrar toda prosa que já não precisava mais da escadinha para alcançar a torneira da pia, eu fiquei boquiaberta de propósito para deixar bem claro como aquilo era importante, no que ela se antecipou a mim se “se” perguntou, novamente, com um tom muito familiar: “Onde é que eu vou parar, hein!?” (com a mãozinha na cintura!)
 O curioso de conviver com esses pequenos clones existenciais é que não precisamos mais do espelho para encontrar nossos trejeitos por aí. Eles ganham corpo e alma e ficam tão evidentes que, se bem observados, podem nos economizar algumas sessões de terapia. É uma auto-ajuda espontânea e muito mais divertida. Dona mamãe tem mesmo sempre o que aprender.



Isabel Clemente
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1 Comentários- Comente!:

Robson Rodrigues disse...

Cler, é muito linda a afinidade de vocês. Não pude deixar de rir ao achar gostoso o carinho de vocês do piscar o olho. Isso é muito simples e muito especial ao mesmo tempo.

Abraço,

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